Uma velha senhora chinesa fazia todos os dias o mesmo caminho entre o rio e sua casa.
Ela carregava uma longa vara sobre os ombros e, em cada extremidade, levava um grande vaso cheio de água.
Um deles era perfeito.
Chegava todos os dias à casa da senhora completamente cheio, sem perder uma única gota durante o caminho.
O outro, porém, tinha uma rachadura.
Por causa dela, parte da água escapava lentamente enquanto a senhora caminhava.
Quando chegavam em casa, aquele vaso entregava apenas metade da água que havia recebido no rio.
Durante muito tempo, foi assim.
O vaso perfeito tinha orgulho de cumprir sua função com perfeição.
O vaso rachado, ao contrário, carregava vergonha.
Sentia que havia falhado.
Que não conseguia fazer aquilo para o qual existia.
Depois de dois anos convivendo com aquela sensação, decidiu falar com a senhora.
— Tenho vergonha de mim mesmo
— disse ele.
— Por causa dessa rachadura, perco metade da água durante o caminho.
Enquanto o outro vaso cumpre perfeitamente sua função, eu só consigo entregar metade do que deveria.
A senhora sorriu.
Então perguntou:
— Você já reparou nas flores que existem apenas do seu lado do caminho?
O vaso nunca havia pensado naquilo.
E ela continuou:
— Eu sempre soube da sua rachadura.
Por isso, plantei sementes ao longo do caminho, exatamente do seu lado. Todos os dias, sem perceber, você as regava.
Durante dois anos, a água que o vaso acreditava estar desperdiçando havia ajudado aquelas flores a crescer.
E eram justamente aquelas flores que a senhora colhia para enfeitar sua casa.
Aquilo que o vaso enxergava apenas como uma falha havia deixado beleza por todo o caminho.
Quando nos comparamos com aquilo que parece perfeito
Talvez a parte mais triste da história seja perceber que o vaso rachado não se enxergava apenas como diferente.
Ele se enxergava como menos.
Todos os dias, fazia a mesma comparação.
De um lado, o vaso perfeito chegava cheio.
Do outro, ele chegava pela metade.
E, a partir daquela diferença, decidiu que havia algo errado com ele.
Fazemos isso com mais frequência do que imaginamos.
Olhamos para alguém que parece mais confiante e concluímos que somos inseguros demais.
Vemos alguém que alcançou algo antes de nós e sentimos que estamos atrasados.
Observamos uma habilidade que outra pessoa possui e transformamos a nossa dificuldade em incapacidade.
A comparação tem essa capacidade de reduzir uma pessoa inteira a um único ponto em que ela acredita não ser suficiente.
O vaso rachado não conseguia ver tudo o que era.
Ele conseguia enxergar apenas a água que perdia.
E talvez algumas das nossas maiores inseguranças também nasçam assim.
Não porque sejamos definidos por aquilo que nos falta.
Mas porque passamos tanto tempo olhando para essa falta que esquecemos de olhar para todo o resto.
Nem sempre enxergamos as flores que deixamos pelo caminho
Essa, para mim, é a parte mais bonita da metáfora.
Durante dois anos, o vaso acreditou que estava desperdiçando água.
Enquanto isso, havia flores crescendo por onde passava.
Ele não as via como consequência de sua existência.
Talvez nem tivesse parado para perceber que estavam ali.
E isso nos convida a pensar:
Será que também existem coisas boas em nós que simplesmente não conseguimos enxergar?
Talvez uma característica que você considera uma fraqueza tenha ajudado a desenvolver algo importante.
Talvez sua sensibilidade faça você perceber coisas que outras pessoas não percebem.
Talvez uma dificuldade que enfrentou tenha ensinado você a compreender melhor quem passa por algo parecido.
Talvez o seu jeito, tão diferente daquele que você considera ideal, tenha deixado marcas boas em pessoas que você nem imagina.
Isso não significa que toda dor tenha uma recompensa.
Nem que todo defeito seja, secretamente, uma qualidade.
A vida não funciona de maneira tão simples.
Mas talvez exista uma diferença entre reconhecer algo que desejamos melhorar e
acreditar que uma imperfeição é capaz de apagar todo o nosso valor.
O vaso tinha uma rachadura.
A rachadura era real.
Mas ela não era tudo o que existia nele.
Não precisamos ser como o vaso perfeito
Existe uma armadilha escondida na busca por melhorar.
Começamos querendo desenvolver uma habilidade, corrigir um comportamento ou superar uma limitação.
E, sem perceber, passamos a acreditar que só teremos valor quando finalmente nos tornarmos uma versão perfeita de nós mesmos.
Mas talvez essa versão nunca exista.
Sempre haverá algo que outra pessoa faz melhor.
Sempre haverá uma característica que gostaríamos de possuir.
Sempre haverá uma parte da nossa história que, se pudéssemos voltar no tempo, talvez fizéssemos diferente.
Isso faz parte de ser humano.
Crescer é importante.
Mudar é importante.
Aprender é importante.
Mas crescer não precisa significar passar a vida inteira em guerra com quem somos hoje.
O vaso rachado não precisava se transformar no outro vaso para descobrir que também tinha valor.
Ele precisava apenas perceber que ser diferente não significava ser inútil.
Talvez essa seja uma das formas mais difíceis de amadurecer:
continuar buscando melhorar, sem transformar cada imperfeição em uma prova de que não somos suficientes.
O convite de hoje:
Talvez exista alguma rachadura em você que já recebeu atenção demais.
Algo que você tenta esconder.
Uma característica que gostaria de apagar.
Uma dificuldade que usa como prova de que nunca será tão bom quanto deveria.
Hoje, talvez você possa fazer algo diferente.
Em vez de olhar apenas para aquilo que perde, tente olhar para o caminho.
Existem flores ali?
Existem coisas boas que você deixou sem perceber?
Pessoas que foram tocadas por algo que faz parte de quem você é?
Aprendizados que nasceram justamente de uma dificuldade?
Talvez você ainda queira reparar algumas rachaduras.
E tudo bem.
Mas não precisa esperar se tornar perfeito para reconhecer o seu valor.
Porque talvez aquilo que você enxerga apenas como uma falha não seja toda a sua história.
Talvez seja apenas uma parte dela.
E, enquanto você passa tanto tempo olhando para a água que acredita ter perdido,
pode ser que existam flores crescendo silenciosamente ao longo do caminho.
Talvez você esteja olhando para a sua rachadura sem perceber as flores que ela ajudou a fazer nascer.
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