O que você está construindo: muros ou pontes?

Dois irmãos viviam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um pequeno riacho.

Durante muitos anos, trabalharam lado a lado

Conheciam a rotina um do outro, compartilhavam os dias de trabalho e, 

como acontece entre pessoas que convivem durante muito tempo, 

também conheciam as diferenças, os defeitos e as manias um do outro.

Até que, um dia, uma pequena desavença cresceu além do que deveria.

Vieram palavras ríspidas.

Depois, o silêncio.

Os dias passaram, e o que antes era apenas um mal-entendido transformou-se em distância.

O riacho que separava as duas propriedades continuava pequeno, 

mas agora parecia existir entre os irmãos uma distância muito maior.

Certa manhã, um carpinteiro apareceu na fazenda do irmão mais velho procurando trabalho.

— Estou procurando algum serviço. 

Sou carpinteiro. 

Talvez você tenha alguma coisa que eu possa fazer.

O fazendeiro olhou para ele e apontou para uma pilha de madeira que estava no celeiro.

— Tenho, sim. 

Está vendo aquela fazenda do outro lado do riacho? 

É do meu irmão. 

Nós brigamos e não quero mais olhar para ele. 

Construa uma cerca bem alta entre nossas propriedades. 

Quero não ter mais que enxergá-lo.

O carpinteiro ouviu em silêncio.

— Acho que entendi.

O fazendeiro entregou-lhe o material e foi para a cidade.

Durante todo aquele dia, o carpinteiro trabalhou.

Cortou.

Mediu.

Ajustou.

Pregou.

Quando o fazendeiro voltou, já no fim da tarde, ficou completamente surpreso.

Não havia cerca alguma.

No lugar dela, atravessando o riacho, havia uma ponte.

Uma bela ponte de madeira ligava as duas margens.

O fazendeiro ficou furioso.

— Eu pedi uma cerca! 

Depois de tudo o que contei a você, como pôde fazer uma ponte?

Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, percebeu um movimento do outro lado.

Seu irmão vinha caminhando em sua direção.

Os dois ficaram parados por alguns instantes.

Talvez nenhum deles soubesse exatamente o que dizer.

Então o irmão mais novo abriu os braços.

E, naquele momento, o irmão mais velho correu ao seu encontro.

Os dois se abraçaram no meio da ponte e choraram.

Não era apenas uma ponte sobre um riacho.

Era uma passagem sobre tudo aquilo que havia acontecido entre eles.

O carpinteiro começou a guardar suas ferramentas.

O fazendeiro, ainda emocionado, disse:

— Espere! Fique conosco. 

Tenho outros trabalhos para você.

O carpinteiro sorriu.

— Eu adoraria, mas ainda tenho outras pontes para construir.

Às vezes construímos muros para proteger uma ferida

Talvez o mais fácil nessa história seja olhar para o muro que o irmão queria construir

pensar que ele estava simplesmente sendo orgulhoso.

Mas talvez não fosse apenas isso.

Ele estava magoado.

E quando estamos magoados, algumas decisões parecem fazer sentido.

Afastar-se parece mais seguro.

Não conversar parece mais fácil.

Deixar de procurar alguém parece uma maneira de evitar novas decepções.

E, pouco a pouco, começamos a construir nossos próprios muros.

Às vezes fazemos isso com palavras.

Às vezes com silêncio.

Às vezes com indiferença.

Às vezes simplesmente deixamos de procurar.

O problema é que um muro construído para impedir que alguém nos machuque novamente também pode impedir que alguém chegue até nós.

E, depois de algum tempo, podemos até esquecer por que ele está ali.

Restam apenas a distância e a certeza de que atravessar para o outro lado parece impossível.

Perdoar não significa dizer que nada aconteceu

Perdoar não apaga aquilo que aconteceu.

Não transforma uma palavra cruel em uma palavra bonita.

Não faz uma decepção deixar de existir.

E também não significa que todas as relações precisam voltar a ser exatamente como eram antes.

Perdoar pode simplesmente significar decidir que uma dor não continuará ocupando espaço dentro de nós.

É deixar de alimentar diariamente aquilo que nos feriu.

É reconhecer a história sem permitir que ela determine todos os próximos capítulos.

O irmão não conseguiu voltar ao dia anterior à briga.

Mas conseguiu atravessar a ponte.

E talvez seja isso que o perdão muitas vezes representa:

não voltar ao que era, mas encontrar uma maneira de seguir sem continuar preso ao que aconteceu.

Crescer também é aprender a construir de outra maneira

Talvez o carpinteiro pudesse simplesmente ter feito aquilo que lhe pediram.

Uma cerca seria mais fácil.

Seria exatamente o que o fazendeiro havia solicitado.

Mas ele enxergou outra possibilidade.

E isso também pode acontecer conosco.

À medida que crescemos, começamos a perceber que nem sempre precisamos responder às situações da mesma maneira que respondíamos antes.

Podemos aprender a conversar em vez de fugir.

Podemos ouvir antes de julgar.

Podemos pedir desculpas.

Podemos reconhecer nossos próprios erros.

Podemos estabelecer limites sem transformar limites em muros.

Crescer não significa deixar de ser ferido.

Significa aprender a lidar com aquilo que nos fere sem permitir que a mágoa escolha por nós o que faremos depois.

Algumas pontes começam de um lado só

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis.

Nem sempre sabemos como o outro vai reagir.

Podemos estender a mão e não receber outra de volta.

Podemos pedir perdão e não ser perdoados.

Podemos tentar conversar e encontrar silêncio.

Por isso, construir uma ponte não significa acreditar que controlaremos o outro lado.

Significa reconhecer que existe um passo que pertence a nós.

Às vezes esse passo será uma conversa.

Às vezes, um pedido de desculpas.

Às vezes, uma mensagem.

Às vezes, simplesmente deixar de alimentar uma antiga mágoa.

E algumas vezes, a ponte que precisamos construir não será para voltar a uma relação, mas para conseguir seguir em frente em paz.

Não podemos decidir o que o outro fará.

Mas podemos decidir o que vamos construir do nosso lado.

Talvez existam muros que já não precisam estar ali

Pense por alguns instantes nas pessoas que fazem parte da sua história.

Talvez exista alguém com quem você se afastou por causa de uma mágoa.

Talvez uma conversa tenha terminado mal.

Talvez uma palavra tenha criado uma distância que permaneceu por anos.

Talvez você tenha construído um muro tão alto que já nem consegue lembrar exatamente quando começou a colocá-lo ali.

Não significa que você precise derrubá-lo hoje.

Nem que toda relação possa ou deva ser reconstruída.

Mas talvez valha a pena perguntar:

Esse muro ainda precisa existir?

Porque algumas barreiras nos protegem durante um período.

Depois, tornam-se apenas aquilo que nos impede de atravessar.

E talvez crescer seja também perceber a diferença.

O convite de hoje:

Pense em uma ponte que talvez esteja faltando na sua vida.

Não precisa começar com um grande gesto.

Talvez seja apenas uma pequena mudança na maneira como você olha para alguém.

Uma mensagem que há muito tempo você pensa em enviar.

Um pedido de desculpas que ficou esperando.

Uma conversa que você vem adiando.

Ou simplesmente a decisão de parar de carregar uma mágoa que já não precisa continuar acompanhando você.

Você não precisa controlar o outro lado da ponte.

Precisa apenas decidir se quer continuar construindo o muro.

Ou se existe, dentro de você, espaço para começar uma passagem.

Porque algumas das pontes mais importantes da nossa vida não são feitas de madeira.

São feitas de perdão, compreensão, humildade e coragem.

Perdoar não derruba o passado. Mas pode abrir uma passagem para que ele deixe de impedir o caminho que ainda temos pela frente.

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